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sexta-feira, 14 de maio de 2004



Amigos e amigas, para quem quiser saber o paradeiro do escriba aqui, tenho uma saída - para ambas as partes - leitor e autor: cliquem no novo endereço que a decoração mudou, a rua, o bairro...Mas o autor é o mesmo, até segunda ou terceira ordens.


Engrenagem


Boa viagem!


enviado por André - Engrenagem as 17:56:59. comentários[0]

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sábado, 1 de maio de 2004



Aviso aos navegantes


Se alguma coisa no sistema não gira, se algum aparelho no organismo não funciona, se determinado controle remoto foge ao controle, é possivel justificar que a realidade falhou? Nem sempre. Meu blog parou para balanço, mas não para liquidação sumária. Tento reerguê-lo com duas mãos e algumas vagas idéias na cabeça. Não é cinema: nem quero bilheteria. Basta-me como ocasional registros dos meus espantos e ponto de encontro de amigos. Minha melhor justificativa é que mesmo na inércia, nos movemos. Para avaliar o pulso. Não sei avaliar a situação. Fico com o sangue. Coagule por si só, se ele quiser. Eu volto em breve.


André Ricardo Aguiar, motivado por perguntas sobre o blog e seu incerto destino

enviado por André - Engrenagem as 16:26:48. comentários[2]

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terça-feira, 13 de abril de 2004



A idade das chuvas


Quando era infância
tive o meu caderno de chuvas:
algumas rasuradas, outras
fiéis cópias dos deveres do céu.

Quando era infância,
minhas chuvas eram as águas
do que poderiam ter sido:
fruto de rios bem cursados.

Mas herdei a chuva ancestral
que põe umidade na alma
e passa o ano a acarinhar
a palidez das poças de lama.

E é a mesma água que ainda sonha
os grandes oceanos.


André Ricardo Aguiar

enviado por André - Engrenagem as 11:28:30. comentários[11]

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sábado, 10 de abril de 2004



Primeiro poema ao cansaço


Pergunto ao pássaro porque ele voa:
minhas tentativas também são asas.

Corto o dia e a noite em fatias desiguais
com mãos antigas, soar de sinos.

Acordo com a mesma senha
e entro no dia como uma nuvem imóvel.

Se algum segredo me pousa no dedo
não aponta nenhuma direção.

Viver é um cansado segredo.


André Ricardo Aguiar

enviado por André - Engrenagem as 13:43:36. comentários[6]

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domingo, 4 de abril de 2004



Júlio, leitura de um cronópio





A experiência de ler Julio Cortázar é impressionante. O primeiro sintoma ao se deparar com os textos do autor de Bestíário é um mal estar que se quer e se busca – como se toda a linguagem fosse um mecanismo de espanto e o leitor, um receptáculo. Pode-se ler Cortázar de várias maneiras – até distraído. Mas em dado momento, enquanto pequenos ruídos indicam que se está montando uma bomba-relógio ou que um animal pequeno está tomando posse do forro do telhado, recebe-se a chave do universo particular e este autor espalha os arredores dos seus contos por todo o seu espaço e uma a uma, todas as idéias sobre representar a realidade como justificativa caem como folhas – e nenhum outono será o mesmo.
Júlio Cortázar deveria ser lido dentro de uma piscina. Com escafandro. Sua leitura deveria ser acompanhada de uma mesinha de chá e um tigre pousado ao lado. Ou como amortecedor ante a geometria paranóica do labirinto. É o primeiro autor que eu recomendaria para sentir medo. Medo do que pode se abrir no próximo parágrafo, se um personagem deixará de ser o que é, tornando-se outro, talvez um peixe. Leiam o conto Axolotes, e entenderão o que falo.
Causa-me imensa tristeza tentar resumir a dimensão cortazariana. A rota possível é a leitura imediata. Fechem as cortinas, adquira-se uma poltrona, pés descalços e olhos atentos. É uma grave doença não ler Cortázar.


André Ricardo Aguiar

enviado por André - Engrenagem as 13:08:28. comentários[6]

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sábado, 3 de abril de 2004



Farmácia lírica


A leitura, em ambiente que exale um definitivo gosto de requinte, é prazerosa, sobretudo se as palavras significarem aquele outro sentido, só conseguido através de uma imaginação que se cansou de pensar o mundo segundo leis lógicas. É preciso imaginar uma grande dor e um carteiro que parou diversas vezes no caminho. Você se sentirá com sede, desejo de conhecer mais o remetente – aquele que se banhou diversas vezes do rio da leitura e que não escreveu apenas uma carta, mas uma senhora arqueologia de outras tantas cartas, a de Voltaire, de Goethe, de Defoe, de Balzac e Maupassant. Leia devagar no bosque, acelerado, numa estação de esqui, com a voz embargada, numa ópera, ou a deixe repousar dentro de um dicionário, completamente muda. Espere até chegar um ar de novidade e leia a carta como se outra pessoa, movida por ternura, tentasse dizer, em segredo, o que se passa no outro mundo da mesma e anterior pessoa – só que noutro tom de conversa, sussurrante e desconfiado. Isso porque, com o tempo, você ficará com a sensação de que a carta contém uma mensagem cifrada. – e que a linguagem é apenas uma energia que move os significados como de um circuito para outro.


André Ricardo Aguiar

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quarta-feira, 31 de março de 2004



Duelo



Quem bate agora ao espelho sou eu.

Uma porta que abro e dou com esse diabo
chamado desconhecido:

um corpo sem saída,
chave secreta a destrancar
a fechadura das roupas.

Agora não sou eu: é o espelho quem bate,

inquilino sem licença,
boxe sem alarde, latido de imagem
no canil solto da manhã.

Cada ruga, dobra, flerte,
ele me rosna a mesma indiferença
fria, esse dar de ombros, essa língua
e seu palmo de iceberg.

E assim nos batemos em vidro e retina:

soco de lago vitrificado, fundura
de saber quem é quem na arena
entre códigos e runas:

reflexão nenhuma.


André Ricardo Aguiar

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segunda-feira, 29 de março de 2004



KAFKA ÀS AVESSAS


Passou longos períodos em dormências, roçar de caibros, sustos rápidos com a luz. Seu estado de barata, sua estranheza quando se descobria pelos rodapés, seu manejo inocente, despreparado: as antenas tricotavam apenas o instinto de viver. Em algum ponto estava o asco, apenas como redoma, sem se dar na vista. Caminhou longa dinastia da cozinha para as frestas do banheiro. Um dia, quem sabe no apocalipse, chegaria ao quarto. Desinfetaria-se da sua vida ortóptera e onívora, andaria em patinhas rumo a um mundo de formas duvidosas, corroborando sua alucinação de inseto. E subiria entre panos, se alojaria no morno do quarto, deixaria o suor noturno da noite como crisálida - e pesado, remexendo com desconforto esses braços lassos, as pernas em forma de K, a cabeça a tomar rajadas de luz pela janela, sons decodificados, família coagulada numa distante sala de jantar... Quem sabe numa manhã não acordaria como o caixeiro viajante Gregor Samsa?


André Ricardo Aguiar

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quarta-feira, 24 de março de 2004



Entre os lábios



Quis te acordar, beijei a sombra
entre tuas pernas. Umedecida

como uma chuva de polens,
abriu-se como um cais à partida

na hipnose de rastros e viagens:
a assinatura do meu assombro

é esse gosto de amor que me repete
dentro de ti, que te penetra.


André Ricardo Aguiar

enviado por André - Engrenagem as 09:56:44. comentários[11]

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domingo, 21 de março de 2004



Como observar um velório



Já passou pela cabeça de um morto, ainda pairando no limbo, aquela vaidade mórbida de observar como seria o próprio velório? Pois é essa idéia que ocorre a um imaginativo senhor: o defunto que está no caixão é desligado, está sem energia, objeto no qual falta a eletricidade de viver. Agora se observa, como câmera escondida, a estrutura do seu próprio velório. Posição privilegiada, transmissão ao vivo (me perdoem o trocadilho) de um momento que não se repetirá. Vê em panorâmica; mas tem poderes para recortar um detalhe, fazer um zoom, girar para os lados, observar pausadamente cada movimento do ritual. Para si, acabou a existência e qualquer sensação entrou no rol dos feixes imutáveis do acontecido. Agora apenas observa. E o que vê é simples: quem está ali no caixão tem um comportamento exemplar de imobilidade e distinção. Sobretudo porque segue uma etiqueta: mãos cruzadas sobressaindo no mar de lírios, palidez que não chama a atenção nem conduz àquela sensação de medo que inspira um cadáver. O esquife é discreto e submisso aos moldes do morto – na verdade, o esquife aniversaria o morto.
O devaneio do senhor não pára neste ponto. Certo é que o ritual se apresentou em linhas gerais e contendo uma ação no gerúndio: o velório está transcorrendo. Não mais lembra como começou e nem onde termina: tudo é visto na adequação de um tempo suspenso. Mas ele já bem distingue os parentes e amigos – e alguns eventuais conhecidos. O ambiente é de choro. Os parentes possuem um direito maior ao choro descontrolado, mas não é regra. A validade do pranto também é discutível, ou seja, pode-se chorar por amor, por ódio, por desprezo, até pelo prazer de sofrer. Evidentemente há os que pranteiam motivados pela visão de lágrimas: chora-se por educação. Sobre a estrutura da choradeira, Julio Cortázar já descreveu: O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energicamente.” Isso não redunda numa única idéia de lamentar o morto. Há como que vários tons e peculiares expressões num só velório.
O significado do evento pode estar no assunto, nos pequenos incidentes durante a vigília, nas relações entre os parentes e demais convidados, até na geografia do lugar. Se fosse dado ao morto o direito de sobreviver um pouquinho mais, não seria mais justo? Como se permitisse a um filho um pouco mais de história, além do final feliz. O “cadáver adiado” poderia sentar no caixão, dar os últimos conselhos, sugerir uma correção no testamento, perdoar de última hora um velho desafeto, decidir por outra religião, espirrar. Ou mesmo gozar melhores detalhes: aquele grupo de senhoras que conversam animadamente nas cadeiras; um fumante alheio a tudo, incomodado com o burburinho; sons de talheres na cozinha e a aparição de uma cozinheira trazendo uma bandeja de cafezinho; soluços como pano de fundo, a viúva nos sedativos, os filhos mais novos não entendendo porque tanto drama e pouco riso.
Se a câmera é substituída pelo estetoscópio, ouve-se mal e com ruídos os acertos do morto em vida. Mas o mesmo não tomará nenhuma providência, nenhum revide, se falam de algum demérito, uma nódoa engatada. Então a exceção cai bem ao morto - uma anula o outro e dá tudo na mesma. Fato consumado: por mais que o senhor, acima do bem e do mal, goze do privilégio de ver-se no próprio velório, não vai aí nenhuma necessidade de corrigir o passado. O que passou é uma caixa fechada, lacre. Como se não tivesse pousado na existência. O que os outros pensam ou deixam de pensar não mudará em nada a coisa concreta: morto e velório, ou um melhor exemplo, os dois times (os vivos e o morto) estão empatados. O combinado é que depois do jogo a aceitação do sofrimento se dissipe até a próxima partida. Não vá se quebrar a etiqueta com ressurreição, poltergeist, decomposição acelerada ou falta de decoro do finado.
Por fim, câmera que passeou por diversos cômodos, rostos, movimentos os mais comedidos e até os exaltados de plantão, o vaidoso observador do além admira-se da semelhança do aquém, de outros velórios que freqüentou. Até propaga-se um tédio do bem feito. Não existem grandes descobertas. Os mais delicados podem dar vexame, espernear – é esperado, aceito. Os que comportam como enfermeiros(as) ou administradores, ajudando na organização, provisão de calmantes ou frases feitas compensam os que ficam em estado de letargia, os faltosos, os inimigos.
E assim imaginou o senhor: nada que se tire algum sentido profundo. Levou em conta que a máquina de pensar a vida já não tem função separada da aparelhagem. Que o recorte do tempo consumado também está imerso no tempo que não se mede, essa extensa galáxia em que os não nascidos se misturam aos que já morreram. E que por aí seguirá todo o gênero humano. Neste momento, o senhor não imagina mais.


André Ricardo Aguiar

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sexta-feira, 19 de março de 2004



GESTOS


Anterior ao sim, à concha,
os amantes se despiram
com um véu de fim de tarde
e um lance de escadas.

Um lance ambíguo: nenhuma
palavra a mais acrescentava
um menos de esperança
e acesa madrugada.

Foram se distanciando
no mesmo espaço breve
e peninsular de um gesto
só perceptível se susto.

Estamos quites, disseram
às suas almas embrulhadas
em perdizes: voaram baixo
para respectivas casas.

Amar, às vezes, é pisar
em asas.


André Ricardo Aguiar

enviado por André - Engrenagem as 11:20:02. comentários[6]

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quarta-feira, 17 de março de 2004



Esse poema está publicado no zine de poesia ZineQuaNon 9, do poeta (e também amigo) Reynaldo Damazio.
A publicação é dedicada à poesia paraibana e conta com poemas de Lúcio Lins, Astier Basílio, Linaldo Guedes, Sérgio de Castro Pinto, Antonio Mariano e eu.


LEGADO


Deixo aqui meu relógio, lavoura.
Deixo aqui meu cabide, minha náusea,
minha empresa de espantos, meus ais,
interjeições e trejeitos. Mea culpa.
Deixo meu detector de mágoas,
meu rio predileto de margens abstratas,
minha idéia de esconderijo
- o que resultou no furto
de pomares e palavras.
Deixo meu avô tangendo a noite
para as tocas da insônia, tangendo
rezas para o pasto de Deus.
Deixo a casca do impossível,
perfis, carcaças, asco.
Deixo tudo e algo mais
dos noves fora.
Aonde for, fique um nome ou ervas
que não me separo de mim,
que me acompanho
sempre.
(Quem se afasta é o que pensaram de mim,
o outro, o porquê, o quando.
Não sou eu.)
Cumpro a sina sem asas.


André Ricardo Aguiar

enviado por André - Engrenagem as 10:55:44. comentários[3]

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sábado, 13 de março de 2004



Analogia





às três da tarde
sem metafísica nenhuma:
tua flor miúda
em minha vara

às três da tarde
bem mais que atravessá-la,
corromper a cicatriz
de tua flor rara

nem tinha lido Dante
nem eras Beatriz
- mas que paraíso
às três da tarde!

enfiar-se numa colméia,
picá-la.


André Ricardo Aguiar

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quinta-feira, 11 de março de 2004



Uma fábula portátil de Sérgio de Castro Pinto


as cigarras


são guitarras trágicas

plugam-se/se/se
nas árvores
em dós sustenidos.

kipling recitam a plenos pulmões.

gargarejam
vidros
moídos.

o cristal dos verões.


(Sérgio de Castro Pinto)



Um aspecto muito recorrente na poesia de Sérgio de Castro Pinto é de natureza lúdica. Da safra recente, é o que podemos observar num poema como As cigarras. Mas é um texto que se aciona como um jogo e é necessário ter em mãos uma certa memória cultural para “brincar” com as propostas do poema. Ou seja, capturar não só o que conhecemos ou desconhecemos sobre as cigarras, mas devanear, à maneira de Gaston Bachelard, um estudioso da poesia, nas muitas imagens que podem vir à tona com este item de bestiário.
Poemas sobre animais são recorrentes nos mais variados autores. De Apollinaire a Manuel de Barros, em movimentos e aproximações com as peculiaridades humanas. Em Sérgio, muitas vezes, a escolha é mais radical, quando ao inusitado do poema juntam-se geografias inexploradas do objeto animal.
Convém notar que neste poema o próprio título já faz parte do enunciado, ao mesmo tempo em que dará seqüência à sua própria definição. As cigarras são conhecidas pelo canto estridente, e é comum encontrá-las nas árvores, no cair das tardes. Nesse ponto, o primeiro verso opera, através do sintagma /guitarras trágicas/ uma associação pelo som. O instrumento, entre seus pares, converge para um som muitas vezes rascante, agônico e cujas notas se prolongam graças ao virtuosismo do músico. De certa forma, é um som entranhado, tirado de seu próprio material. Desse caráter sonoro o autor cria a sua bela metáfora: “as cigarras / são guitarras trágicas”.
Metonimicamente, sabemos da existência da cigarra pelo canto, crônica de sua morte anunciada. Dessa primeira estrofe em diante, outras imagens serão associadas, remetendo ao campo semântico da guitarra e da música, nos semas /plugam-se/, /dós/, /pulmões/. No entanto, na organização lexical, vamos encontrar muito mais do que aparenta.
O primeiro achado do poema é investir na natureza sonora das cigarras, numa união quase perfeita entre o som e o sentido. Cigarras, aliás, também no sentido do aparelho elétrico que encontramos no portão das casas, e cujo som estridente é o substituto do popular “ô de casa!”. Como não ver este “plugam-se” funcionando como ligação tanto para /guitarras/ (plugadas na tomada) como para as próprias /cigarras/ plugadas na parede e também na imagem dos insetos que ficam imóveis no tronco das árvores? O poema, nesta pequena odisséia das cigarras, investe no percurso entre o ciciar até o som estridente final. Vejam que na segunda estrofe a repetição do pronome /-se/ posposto ao verbo imita o cicio da cigarra, jogo lúdico que será desenvolvido na 3ª estrofe.
Ora, um leitor desavisado, não conhecedor do poema de Ruyard Kipling (“If”), pode achar totalmente estranha a referência do título do famoso poema sendo objeto do recital a plenos pulmões: “plugam-se/se/se”. Ainda mais que é a sua tradução que funciona para acoplar o som do cicio, e não o poema original. São os versos de Kipling, em que cada estrofe começa com o pronome se, que remeterão ao cicio das cigarras. Somos então levados, por incontável associação à fabula, a relembrar que a cigarra vive do canto enquanto que a formiga trabalha. Por extensão, é esse próprio canto que ironicamente, “recita” para nós um poema traduzido, não de todo, mas na sua repetição singular, marcando o ritmo.
Sobretudo, é um poema que sugere um sem par de motivações para os seus diversos significados. Como não imaginar as cigarras e o seu destino de gastar toda a sua energia por amor à arte? No caso, conectam-se para doar sua íntima eletricidade (uma pequena usina de moer vidros) para culminar em cristal – na morte, ficam como crisálidas, carcaças ocas e translúcidas, lembrando exatamente o mineral referido.
Este poema de Sérgio de Castro Pinto traz também ecos de outros poemas que, reunidos, já dariam um alentado bestiário, a par de tantas motivações em que bichos e seres humanos formam um conjunto coerente de correspondências. É o que se pode esperar, em grata surpresa, dada a peculiar e inovadora maneira de ver do poeta que é capaz de gastar uma fabula por uma boa imagem.


André Ricardo Aguiar

enviado por André - Engrenagem as 13:31:52. comentários[4]

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Janela Indiscreta





A cena dispara um certo flash
que desconfia a luz para o torto
desejo de ver, sequer ocultar
matéria de crime e voyeur.

Mas o real (suspense por um fio)
é um apartamento que pensa
duas vezes antes de dirigir
qualquer ação.

A ilusão é tão indiscreta
que alarga a janela e vira paisagem.


André Ricardo Aguiar

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terça-feira, 9 de março de 2004



Pessoa Revisited


Diz-me a metáfora, isto é aquilo.
Escuta, Dayse, quando eu morrer
( a mais rarefeita das imagens)
hás-de dizer ao Álvaro de

Campos Alberto Caeiro e Reis
que fui menos que um, por eles,
sendo múltiplo por afã dos três
- daí esta bruma e este meu soluço.

E quando souber que já não sou
quando de morte estiver em mim
(mais um gole de fingimento)

dou meu eu por cicatriz
que minha vida sempre foi
por um triz.


André Ricardo Aguiar

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segunda-feira, 8 de março de 2004



Domingo




Domingo, desordem. Arrasta-se em rodas de ferrugem, a mesma que se acumula no cotovelo das velhas. Nem começou a chover: o sonho do orvalho. Na falta de um sabiá, uma surra canta no quintal do vizinho, o menino pede, na cabeça não! Olhai, Nossa Senhora das Boas Surras as chagas deste pirralho, diz o pai.
O sorveteiro xinga o calor, o vento dá três tapinhas na saia da menina, cora de vergonha.
Quem vê melhor, observa, o céu espuma sem os anjos rechonchudos. Cada tijolo de hora machuca os preocupados. Perto do meio dia as sombras recolhem as anáguas, suas partes íntimas. Aposta-se em chuva e futebol gorado. Bem no alto, na sacada de um edifício, um moço magro paquera o seu corvo de estimação. Depois o estrangula, tão taradinho que é.
À sombra do dia inútil ladrãozinho coça a sarna. Limpa o bigode postiço, contém a tosse, enquanto a tv disputa com o aquário cenas mortas. Chama a morte enquanto a chama de uma piola e a ambigüidade se acendem.
Há quem jure de pés juntos que domingo é uma caixa de sapatos. Alguns, de audição mais apurada, pensam ouvir um trote, um cavalgar. Mas os fantasmas fazem a mesma manicura, e riem, fofoqueiros. Domingo é dia de usa-los com moderação.
Vovó busca aquele ponto perdido no tricô. As janelas suam, a professora de inglês corrige as provas, uma massa de poeira atropela o guarda de trânsito, não há multas. Os dez mandamentos se esconderam em meia garrafa de vinho. Dia do Senhor, mas que senhor ousaria vingá-lo, sofrê-lo?
Pequenos pecados brindam o fim de tarde. Um galo vai à panela, segunda não se canta. Quem casa, além de casa, quer caso. A amásia pede o cigarro, leva cinco facadas. Os vizinhos não ouvem a torneira, restos de sangue devorados pelo ralo. A cigarra zine, o vento zune, o homem zum, as digitais ficam. A justiça. Os percevejos.
O menino, o mesmo da surra, com os cacos do amor-próprio, deixa o bilhete do sorveteiro com a mãe. Sobressaltada, manda o filho curtir o domingo.


André Ricardo Aguiar

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sexta-feira, 5 de março de 2004



Arte Cromática





Antes do branco, o branco,
cor mais diversa do que a morte.
Depois, prenunciando o tempo denso
do pincel, chuva imóvel de amarelos,
modulações de vermelhos, pétalas
desesperadas de sépia,
cores de susto e salvação
e nobreza delicada e de cobre.
Os girassóis pintaram Van Gogh.


André Ricardo Aguiar

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